Copa 2026

A nova Copa do Mundo e suas 48 seleções

Gianni Infantino dá continuidade à sequência histórica de expansão do torneio

Por Guilherme Kuhnen
Gianni Infantino, presidente da Fifa, durante a coletiva de imprensa antes da cerimônia de abertura da Copa do Mundo 2026. (Foto: Instagram / gianni_infantino)
Gianni Infantino, presidente da Fifa, durante a coletiva de imprensa antes da cerimônia de abertura da Copa do Mundo 2026. (Foto: Instagram / gianni_infantino)

O número da vez é 48.

Essa é a quantidade de seleções que vão disputar a Copa do Mundo da Fifa de futebol masculino em 2026. Se você, assim como eu, nasceu neste século, pode ter estranhado à primeira vista. A mudança rompe com o costume construído sobre o formato de 32 seleções, que já parecia bem consolidado. 

No antigo modelo, oito grupos de quatro seleções, organizados de A a H, disputavam um “todos contra todos” numa primeira fase de três partidas. Os dois primeiros colocados de cada grupo avançavam para o mata-mata, onde se enfrentavam em jogo único na chave eliminatória que partia das oitavas de final, passava por quartas e semis, até chegar à Grande Final.

Assim foram disputadas as Copas do Mundo entre 1998 e 2022. Nesta edição, temos 16 participantes a mais. Os oito grupos viraram 12, com a adição das letras I, J, K e L, e agora, os oito melhores terceiros colocados também avançam para o mata-mata, que começa em uma nova fase antes das oitavas: os 16 avos de final ou segunda fase, como tem sido chamada.

O novo modelo da competição fez dessa a Copa com maior número de estreantes desde 2006, quando seis equipes disputaram pela primeira vez. Em 2026, quatro seleções estão estreando: Curaçao, Cabo Verde, Jordânia e Uzbequistão. Além delas, temos outras seis nações que participarão do torneio pela segunda vez em sua história: Panamá, Catar, Bósnia, Haiti, Iraque e República Democrática do Congo — que participou em 1974 como Zaire.

A ampliação posta em prática neste ano começou a ser discutida de forma mais séria durante a campanha de Gianni Infantino à presidência da Federação Internacional de Futebol (Fifa). O suíço foi eleito em fevereiro de 2016. No ano seguinte, a mudança foi aprovada por unanimidade pelo Conselho da Fifa. Apesar disso, o formato proposto à época ainda não era o que vemos aplicado nesta Copa. Este só foi definido no início de 2023, pouco antes da reeleição de Infantino.

Essa não é a primeira vez — e muito provavelmente não será a última — em que a Copa do Mundo muda de formato. Para sair das 13 seleções que disputaram a primeira edição do torneio em 1930 e chegar aos atuais 48 participantes, o futebol acompanhou quase um século de mudanças na configuração da geopolítica mundial que influenciaram a política interna de sua entidade máxima, a Fifa.

A Fifa cresce, a Copa não

A Fifa foi fundada em 1904, em Paris. No primeiro momento, a entidade era composta por sete associações europeias: Bélgica, Dinamarca, Holanda, Suíça, França, Suécia e Espanha. Ao longo das primeiras décadas, o número de membros cresceu à medida em que os primeiros representantes de América, África e Ásia se associaram.

Em 1930, foi realizada a primeira Copa do Mundo de futebol masculino organizada exclusivamente pela Fifa. O torneio reuniu 13 seleções, o que representava quase um terço do corpo associativo da entidade naquela altura. Dentre as participantes, sete eram sulamericanas, quatro europeias e as duas restantes vinham da América do Norte.

Nas edições seguintes o número de participantes flutuou até se estabelecer no formato de 16 seleções que perdurou da Copa de 1954 até a de 1978. O período, posterior ao fim da Segunda Guerra Mundial, marcou os processos de descolonização e independência das nações africanas e asiáticas, sob a influência das tensões da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Aos poucos, os novos estados se filiaram à Fifa, em um movimento que buscava ampliar o reconhecimento de seus processos de independência.

A nova composição da entidade contrastava com uma estrutura de poder que permanecia amplamente controlada pelos países europeus. Já em 1964, África e Ásia representavam a maioria dos associados no Congresso da Federação. Apesar disso, detinham apenas 25% das vagas do então Comitê Executivo, dominado pela Europa.

A diferença era ainda mais marcante na distribuição das vagas para a Copa do Mundo. Na edição de 1966, cada um dos dois continentes teve direito a meia vaga na competição. Isso significava que os vencedores das eliminatórias africanas e asiáticas se enfrentariam para definir qual confederação levaria um representante à Copa. A insatisfação se demonstrou através de um boicote dos países africanos à competição, demandando maior participação no torneio seguinte.

Os votos dos novos membros

Desde o princípio, a Fifa funciona sob um sistema político que preza pela igualdade jurídica de todos os membros associados. Dentro deste sistema, o Congresso é o principal órgão deliberativo. Ele é composto por todas as associações nacionais filiadas à entidade — atualmente 211 — e nele cada uma delas tem o mesmo peso, independente de tamanho, tradição esportiva ou poder econômico. Dentro das assembleias, os votos de Alemanha e Curaçao, adversários de grupo nessa Copa do Mundo, por exemplo, têm o exato mesmo valor.

Dentre as atribuições do Congresso, se destacam: eleger o presidente, alterar os textos da Constituição da entidade, aceitar novos membros e, em casos extremos, expulsar associações filiadas. Por outro lado, a distribuição de vagas e o formato da Copa do Mundo, são terreno de decisão do Conselho da Fifa — antigamente chamado de Comitê Executivo.

Ao contrário do Congresso, o Conselho é formado por um número limitado de membros que ocupam uma determinada quantidade de vagas reservadas a cada confederação continental. Atualmente, ele é formado pelo presidente da Fifa, oito vice-presidentes e mais 27 membros. O órgão comanda o dia a dia da Federação, a alocação de recursos e tem influência direta sobre os temas a serem discutidos nas assembleias do Congresso.

Com o ingresso dos novos estados africanos e asiáticos, a composição política das assembleias mudou rapidamente. A mudança tinha consequências práticas. Se antes a maior parte dos votos estava concentrada na Europa e na América do Sul, a chegada de dezenas de novos membros alterou esse equilíbrio. Em pouco tempo, os países africanos e asiáticos passaram a representar uma parcela crescente do eleitorado responsável por escolher os rumos da Fifa. 

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O problema era que esse novo peso político não aparecia representado na composição do Conselho e, muito menos, nas vagas da Copa do Mundo. Foi analisando esse contexto que um personagem ganhou força dentro da política institucional da Fifa: o dirigente brasileiro João Havelange.

Quem foi João Havelange?

Em sua tese de doutorado intitulada “A dança das cadeiras: a eleição de João Havelange à presidência da Fifa (1950-1974)”, o historiador Luiz Guilherme Burlamaqui faz questão de tomar cuidado com a tentação em atribuir à gestão do brasileiro uma ruptura na política interna da Federação. Pelo contrário, em linhas gerais o pesquisador defende que Havelange deu sequência a uma tendência de globalização que já crescia nos corredores da entidade. A pesquisa, defendida em 2019, serviu como uma das principais bases para a produção desta reportagem, em conjunto com entrevista concedida pelo próprio historiador. 

Nascido no Rio de Janeiro, em 1916, João Havelange foi atleta olímpico de natação e polo aquático entre as décadas de 30 e 50. Posteriormente se tornou dirigente esportivo, atuando como presidente da Federação Metropolitana de Natação no começo dos anos 50. “Havelange é um homem do Vargas, que foi ascendendo em uma geração de novos burocratas. Em um processo de mudança da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) ele é eleito vice-presidente, muito jovem ainda. E quando o presidente se afasta ele assume”.

Este é o cenário em 1958. Sob o início do mandato de Havelange como presidente da CBD, o Brasil conquista sua primeira Copa do Mundo, com o brilho do então jovem Rei Pelé. Quatro anos depois, vem o bicampeonato nos pés de Garrincha. O ápice de seu sucesso na Confederação Brasileira veio em 1970. O tricampeonato conquistado no México contra a Itália e a posse definitiva da Taça Jules Rimet internacionalizaram de vez a figura de Havelange.

Havelange se alia ao “Terceiro Mundo”

O sucesso da seleção brasileira trouxe projeção ao dirigente carioca justamente no período em que as tensões dentro da Fifa se ampliavam. As demandas por maior participação dos países do denominado Terceiro Mundo já estavam estabelecidas. Diante desse cenário, e tendo em mente a força eleitoral dos novos membros da Fifa, Havelange enxergou espaço para uma candidatura alternativa, focada em uma aliança com as federações marginalizadas, para disputar o cargo máximo da entidade contra o então presidente Stanley Rous.

“Um dos principais pontos do programa de campanha de Havelange para a Fifa era a promessa de reproduzir em termos globais o que ele havia feito no Brasil. Para tal era necessário construir uma determinada ideia de Brasil”, escreveu Burlamaqui em sua pesquisa. Durante a campanha, diversos dirigentes do futebol mundial passaram pelo Brasil.

O próprio João Havelange, por outro lado, realiza viagens por cerca de oitenta países, buscando estreitar relações com os delegados das federações cujo voto almejava — viagens estas que contaram com apoio logístico do Estado brasileiro, além do financiamento do setor empresarial da sociedade civil.

A plataforma de campanha que elegeu João Havelange instrumentalizou com sucesso as reivindicações da época. Pautas como a maior participação do bloco afro-asiático na Copa do Mundo, a expulsão da África do Sul — que vivia o regime de segregação racial do Apartheid — do quadro associativo da entidade e a ampliação dos programas de desenvolvimento do futebol nos países do sul global foram decisivas para a vitória do dirigente brasileiro.

Em junho de 1974, durante o 39º Congresso da Fifa, em Frankfurt, na Alemanha, ele derrotou Stanley Rous em uma eleição de dois turnos, tornando-se o primeiro — e único até o momento — não-europeu a assumir o comando da organização.

De Havelange à Blatter

João Havelange permaneceu no comando da Fifa por 24 anos. Ele é o segundo presidente a passar mais tempo no cargo, perdendo apenas para Jules Rimet, que esteve à frente da entidade por 33 anos. Hoje, o próprio estatuto da Fifa limita a quantidade de tempo que uma única pessoa pode comandar a Federação: uma eleição e duas reeleições, totalizando 12 anos.

“Eleito, Havelange resolveu os principais problemas geopolíticos da Fifa: reintegrou a China Popular, expulsou a África do Sul definitivamente, alocou Israel na Uefa (Europa)”. Foi também nesse período que aconteceu a ampliação da Copa do Mundo de 16 para 24 seleções, modelo que perdurou entre as edições de 1982 e 1994. Neste formato, as confederações da América do Norte, África e Ásia ganharam uma nova vaga cada.

O alinhamento aos países periféricos, não só manteve Havelange no cargo por mais de duas décadas como também elegeu seu sucessor, o suíço Joseph Blatter, que seguindo os passos do brasileiro, ampliou novamente o mundial. Dessa vez para as 32 seleções que disputavam o torneio até a edição passada, em 2022, no Catar.

Blatter foi presidente até 2015, quando foi forçado a renunciar em meio a um escândalo de corrupção da Fifa envolvendo esquemas de suborno, lavagem de dinheiro e fraude na escolha de sedes de Copas do Mundo. Depois de uma década enfrentando o processo criminal pela autorização de um pagamento de dois milhões de francos suíços ao então presidente da União das Associações Europeias de Futebol (Uefa), Michel Platini, Blatter foi inocentado.

Havelange também teve sua gestão marcada por escândalos de corrupção. O mais marcante, referente ao recebimento de propina em troca da cessão dos direitos de transmissão da Copa do Mundo nos anos 90, resultou na perda do seu cargo de membro vitalício do Comitê Olímpico Internacional (COI) e do título de presidente de honra da Fifa.

Infantino e a nova ampliação

Voltamos a 2026 e ao quase seleto grupo de 48 seleções classificadas para a disputa da Copa do Mundo. Na atual configuração, quase todas as confederações continentais bateram o próprio recorde de participantes no torneio. A distribuição ficou assim:

Europa: 16 vagas diretas

África: 9 vagas diretas

Ásia: 8 vagas diretas

América do Norte, Central e Caribe: 6 vagas diretas

América do Sul: 6 vagas diretas

Oceania: 1 vaga direta

Repescagem: 2 vagas (conquistadas nessa edição por República Democrática do Congo e Iraque)

O processo encabeçado por Infantino tem seus comparativos com aqueles conduzidos por Havelange e Blatter no século passado. Para Luiz Guilherme Burlamaqui, a semelhança reside na tentativa de usar politicamente a ampliação do torneio e a criação de novas vagas.

São as diferenças, porém, que chamam mais a atenção do pesquisador. Para ele, o crescimento no número de federações filiadas à Fifa nos anos 60, vinculada ao processo de descolonização na África, justificou a ampliação do torneio à época. 

“Já não fazia mais sentido uma Copa com 16 seleções. Mesma coisa nos anos 90. Fim da União Soviética e da Iugoslávia. Aí não fazia mais sentido uma Copa com 24 seleções”, explicou o historiador.

Em sua análise, não existe um paralelo que justifique a recente ampliação. “A única justificativa que explica essa expansão é monetária. A necessidade de ter mais dinheiro para tocar a Fifa e o futebol”.

Fato é que a expansão aconteceu e estamos acompanhando sua aplicação. De forma pouco oficial, já paira no ar da Federação Internacional de Futebol a ideia de uma Copa do Mundo com 64 participantes. Em entrevista à CazéTV, frente ao estádio Azteca, no México, no dia da abertura da Copa do Mundo, Gianni Infantino afirmou que existiram discussões sobre o tema. “A questão foi levada ao Conselho da Fifa. Vamos ter que discutir isso, mas, por enquanto, vamos aproveitar esta primeira Copa do Mundo com 48 seleções”, disse.

Desde as primeiras propostas de ampliação, o presidente ressaltou em diversas oportunidades que considerava o processo essencial para a democratização das vagas da maior competição de futebol do planeta. Apesar disso, pouco fez quando uma das sedes do torneio começou a impedir, ou no mínimo dificultar, a entrada de torcedores, atletas e autoridades em seu território.

A expectativa é que Infantino seja reeleito no Congresso da Fifa do ano que vem. A Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) já declarou seu apoio ao atual presidente. Em caso de vitória, esse será o terceiro e último mandato do suíço à frente da entidade. 

Até lá, o número da vez segue sendo 48. Resta torcer para que as demais ações da entidade máxima do futebol mostrem que ele representa mais do que um mero instrumento político e, em última instância, apenas um número.