Especial

Copa Manchada

Tratamento do governo dos Estados Unidos a determinados países traz crise e expectativa de manifestações durante a Copa do Mundo

Por Victor Hugo Viegas
Jogadores do Irã na preparação para a estreia na Copa do Mundo  • Carlos A. Moreno/Anadolu via Getty Images
Jogadores do Irã na preparação para a estreia na Copa do Mundo • Carlos A. Moreno/Anadolu via Getty Images

A Copa do Mundo de 2026 acontece simultaneamente em 3 países. México e Canadá sediam alguns jogos, enquanto a maioria das partidas ocorre nos Estados Unidos. Durante a preparação e organização para o evento, o  governo estadunidense dificultou ou até proibiu a entrada, participação e presença de atletas, comissões e árbitros de países que não possuem boa relação diplomática com o país sede. 

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Torcedores que já haviam se programado para ir à copa, com ingressos e passagens compradas tiveram seus vistos negados, impedindo algumas torcidas de comparecerem livremente ao país. Além disso, alguns jogadores convocados também não receberam autorização de desembarcar, como é o caso do atacante suíço Breel Embolo, que às vésperas do mundial teve o visto negado. Embolo conseguiu recorrer e foi liberado para se juntar à seleção.

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Outros não tiveram a mesma sorte. O caso do árbitro Omar Artan repercutiu mundialmente. Nascido na Somália e eleito em 2015 o melhor árbitro africano, foi barrado nos EUA para apitar a Copa e retirado da lista de árbitros da FIFA relacionados para o mundial.

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O caso mais simbólico é o da seleção do Irã, invadido e em guerra com os Estados Unidos desde fevereiro deste ano. Parte dos torcedores não pôde comparecer, assim como membros da comissão técnica, que tiveram os vistos negados para o país. Os jogadores iranianos foram liberados, mas foi decidido que a seleção deverá ter sua base no México, jogando nos EUA e retornando no mesmo dia ao país vizinho, em todas as partidas. Após o início da copa, a equipe enfrenta problemas nos aeroportos para fazer o trajeto entre países. Após o jogo de estréia contra a Nova Zelândia, o capitão Mehdi Taremi e o auxiliar Saeid Alhouei ficaram retidos no aeroporto, enquanto todos os outros jogadores esperavam no avião para o México.

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Além do irã, jogadores do Senegal foram revistados na pista de um aeroporto, sendo submetidos a detectores de metal e tirando os sapatos. O tratamento não é padrão e não foi aplicado a seleções européias e sul americanas, por exemplo. O atacante Aymen Hussein, autor do gol que classificou a seleção do Iraque à Copa foi interrogado por cerca de 7 horas no aeroporto de Chicago. A segurança do aeroporto afirmou que confundiu o jogador com outra pessoa. Aymen não foi o único iraquiano abordado. O fotógrafo da seleção, Talal Salah, ficou detido por 13 horas e teve sua entrada no país classificada como “inadmissível”, sendo deportado em seguida.

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Mesmo diante da pressão popular em torno de todos os casos de discriminação, a FIFA não aplicou retaliações aos Estados Unidos. O atual presidente da entidade, Gianni Infantino, é abertamente apoiador e amigo do presidente Donald Trump, fato que complementa a atuação lacônica da entidade que organiza o evento. A FIFA também protagonizou casos de intervenções que foram analisadas como preconceituosas contra determinadas seleções. A seleção do Haiti, que participa pela primeira vez de um mundial depois de mais de 50 anos, elaborou um uniforme para os jogadores que homenageava a independência do país, considerada um marco histórico na luta contra o colonialismo. A FIFA determinou que a seleção alterasse o uniforme poucos dias antes da estréia, alegando que a camisa continha “conteúdo político”.

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Esses e outros casos polêmicos marcam a edição de 2026 como uma das Copas mais politizadas da história. Muito disso se deve ao fato de que entre os 47 países participantes, 42 já sofreram interferência militar ou política dos Estados Unidos, com muitos protagonizando ainda hoje relações tensas com o país e com o presidente Trump.

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Apesar da proibição de manifestações consideradas políticas durante os jogos, muitas seleções entram em campo carregando um passado e um presente de tensões. Em meio a isso, a expectativa é que o desenrolar do mundial seja acompanhado por simbolismo político e manifestações fora do campo, principalmente vindo das torcidas de países que sofreram com preconceito. Em algumas cidades dos Estados Unidos essas manifestações já ocorrem, como é o caso de Nova York, que possui um grande componente de imigrantes e descendentes de imigrantes em sua população.

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Diante do cenário, a ONU se pronunciou à respeito das práticas de imigração durante a Copa do Mundo e criticou o governo Trump:

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“Espero sinceramente que haja uma profunda reflexão sobre como a aplicação das leis de imigração afetam os direitos humanos e a dignidade humana, e que, especialmente para a Copa do Mundo, haja uma revisão das políticas que infelizmente estamos vendo prevalecer, principalmente nos EUA, neste momento.”

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