Copa 2026

Crise geopolítica engole o futebol e transforma a participação do Irã na Copa de 2026

Sem visto para dirigentes e proibidos de dormir nos EUA, iranianos enfrentam rotina exaustiva em um torneio que virou o espelho de um mundo em guerra.

Por Bela Nowalls
(Jogadores do Irã comemoram gol contra Nova Zelândia em empate no dia 15 de junho de 2026. Crédito da imagem: Instagram Oficial da Federação do Irã FFIRI)
(Jogadores do Irã comemoram gol contra Nova Zelândia em empate no dia 15 de junho de 2026. Crédito da imagem: Instagram Oficial da Federação do Irã FFIRI)

O futebol, historicamente, se orgulha de ser uma “tabula rasa”. Uma tela em branco onde povos projetam seus valores e, por noventa minutos, esquecem as fronteiras. Mas na Copa do Mundo de 2026, as linhas do gramado foram engolidas pela dura realidade da geopolítica internacional. Sob a influência de um conflito armado real no Oriente Médio iniciado no início deste ano, a seleção do Irã vive uma situação difícil no esporte moderno para conseguir jogar o torneio.

Entendendo o Esporte como Espelho do Mundo

Alexandre Kerson de Abreu é jornalista formado pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel) e destaca que é impossível analisar o que acontece dentro das quatro linhas ignorando as crises que moldam o planeta. “Como qualquer outro esporte, ele é uma parte integrante da sociedade. Não tem como você pensar numa partida esportiva sem olhar o contexto mais amplo. Tudo o que está acontecendo no mundo naquele momento, ele se reflete para essa partida”, diz Alexandre.

O jornalista também aponta como as rivalidades fora de campo mudam completamente a cobertura jornalística e o peso emocional de um jogo, especialmente no futebol. “De todas as formas, como eu disse, uma partida esportiva é uma amostragem da sociedade. Então, se nós estamos vivendo um problema político naquele momento, isso vai ser refletido na partida. Vão ter as matérias básicas sobre o jogo, mas vão ter matérias especiais também, tentando trazer para esse contexto do jogo as rivalidades, as brigas políticas, econômicas”, destaca.

Concentração no México e Sem Pernoite nos EUA

Após os bombardeios coordenados por forças americanas e israelenses contra o território iraniano no fim de fevereiro, a simples presença da equipe no torneio foi uma incógnita. Embora os 26 jogadores tenham recebido autorização de Washington para pisar em solo americano, o governo dos Estados Unidos impôs restrições severas, pois os vistos concedidos têm caráter estritamente temporário e proíbem qualquer pernoite da delegação no país.

O plano original de se hospedar em Tucson, no Arizona, foi inteiramente descartado. A solução encontrada foi uma operação logística inédita e desgastante. A delegação iraniana desembarcou no México e fixou sua base em Tijuana. O time precisará cruzar a fronteira aérea ou terrestre para treinar e jogar nos EUA, sendo obrigado a retornar ao território mexicano imediatamente após o término de cada partida. A barreira diplomática barrou inclusive o presidente da Federação de Futebol do Irã (FFIRI), Mehdi Taj, e outros 15 dirigentes e funcionários que tiveram suas entradas totalmente negadas pelas autoridades americanas.

O Bloqueio dos Ingressos

Se para os atletas o desafio é físico e psicológico, para os torcedores iranianos o sonho de ver a seleção virou uma confusão burocrática e política. Poucos dias antes da abertura oficial do torneio, a FFIRI denunciou que a cota oficial de 8% dos ingressos destinada à federação foi subitamente retida e bloqueada.

Muitos torcedores que já haviam planejado a viagem, comprado passagens e reservado hospedagens no México ou no entorno foram deixados do lado de fora dos estádios. Em nota, a entidade iraniana apelou para a Fifa, exigindo que a instituição mantenha os seus pilares de neutralidade e justiça:

“Impedir o acesso dos torcedores iranianos à cota oficial é uma medida contrária ao espírito que rege as competições internacionais e ao princípio da igualdade entre os países participantes.”

Para aumentar a complexidade interna, o desembarque do time na megalópole de Los Angeles, carinhosamente apelidada de “Tehrangeles” devido à massiva comunidade de imigrantes iranianos na Califórnia, divide opiniões. Enquanto parte da população iraniana no país vê a seleção como um símbolo de orgulho nacional, outros grupos enxergam a equipe como um instrumento de propaganda política do regime de Teerã, o que promete transformar as arquibancadas em um balde de manifestações e contradições ideológicas.

O Caminho do Irã na Fase de Grupos

Sorteado no Grupo G, o Irã fará toda a sua primeira fase em solo americano, aumentando o drama de sua rotina de viagens diárias a partir de Tijuana. Confira o calendário da seleção:

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  • Data
  • Adversário
  • Cidade

  • 15 de junho
  • Nova Zelândia
  • Los Angeles

  • 21 de junho
  • Bélgica
  • Los Angeles

  • 26 de junho
  • Egito
  • Seattle {% /table %}

O Fantasma de 1998 e a Chance de um Choque Direto

O sorteio inicial da Fifa evitou o confronto direto na primeira fase, já que o Irã ficou no Grupo G, enquanto os Estados Unidos figuram no Grupo D. A separação, no entanto, não elimina a chance de um choque direto nas fases eliminatórias, reeditando o histórico e tenso jogo da Copa do Mundo de 1998, na França, vencido pelo Irã por 2 a 1.

Em um cenário onde os Estados Unidos avancem em primeiro lugar de seu grupo e o Irã passe em primeiro no seu, o confronto direto aconteceria já nas oitavas de final, no dia 6 de julho, em Seattle. Se ambos passarem na segunda colocação de seus respectivos grupos, eles se enfrentariam no mata-mata da segunda fase, no dia 3 de julho, em Dallas.

Como dizia o antropólogo Roberto DaMatta, o esporte é a própria sociedade exprimindo-se por meio de regras e ideologias. Ao entrar em campo nesta Copa, os jogadores iranianos carregarão nas costas muito mais do que o peso da camisa. Carregarão o reflexo de um mundo fragmentado, onde o futebol tenta sobreviver em meio à fumaça da guerra.