Florianópolis, a capital do skate que ainda busca estrutura para sustentar o título
Cidade revela atletas olímpicos, recebe grandes competições mas segue com baixos investimentos e manutenção nas pistas segundo skatistas
Florianópolis construiu uma relação com o skate que ultrapassa a prática esportiva. A cidade revelou atletas de destaque internacional, como Pedro Barros, Isadora Pacheco e Nicolas Falcão, recebeu etapas de competições nacionais e possui espaços reconhecidos pela comunidade, como as pistas da Trindade e do Abraão. Apesar do reconhecimento dentro da modalidade, skatistas e envolvidos com a cena local apontam que a estrutura disponível ainda levanta discussões sobre investimento, manutenção e acesso aos espaços de prática.
O skatista Harry “OG” Jumonji acompanha essa relação entre cidade e skate desde a década de 1970. Ligado ao desenvolvimento do street skate no Brasil, modalidade em que os praticantes utilizam elementos do ambiente urbano, como corrimões, calçadas e obstáculos das ruas para realizar manobras, ele participou da construção de uma cultura que se desenvolveu antes da entrada do skate em grandes competições.
Durante a programação do Go Skate Day, em Florianópolis, Harry falou sobre a relação entre o skate como esporte e como cultura criada pelos próprios praticantes. Para ele, mesmo com a profissionalização da modalidade e a presença em eventos oficiais, o skate mantém uma identidade ligada à liberdade de criação e à forma como cada skatista ocupa os espaços. “Não tem dono do skate, não tem regras, não tem certo ou errado. E é isso que importa”, disse.
A trajetória de Harry ajuda a explicar uma das características históricas da modalidade: a construção de uma comunidade antes da consolidação do skate como esporte competitivo. A presença nas ruas, nas praças e nos espaços urbanos fez parte da formação da cena em diferentes cidades, incluindo Florianópolis.
Essa relação entre skate e cidade também aparece em pesquisas da Universidade Federal de Santa Catarina sobre a pista da Trindade. Os estudos analisam o espaço como ponto de convivência e memória da comunidade skatista, mostrando que a pista não funciona apenas como local de treinamento, mas como ambiente de encontro e construção de relações entre praticantes.
A cidade também se tornou referência pela formação de atletas de alto rendimento. Pedro Barros, medalhista olímpico em Tóquio, e Isadora Pacheco, atleta olímpica no park, representam uma geração de skatistas de Florianópolis que levou a modalidade local para competições internacionais. A presença feminina também ganhou espaço com atletas como Isadora, que participou do crescimento do skate competitivo em uma cena historicamente marcada pela presença masculina.
Mas a formação de atletas depende de uma estrutura que vai além do talento individual. Carlos Falcão, integrante da Associação Skateboard do Abraão e pai do skatista profissional Nicolas Falcão, explica que os espaços da cidade possuem funções diferentes dentro da modalidade. Segundo ele, a pista da Trindade mantém uma relação mais próxima com a origem do skate de rua, enquanto o Abraão foi pensado para treinos voltados ao alto rendimento.
“A Trindade pega uma origem mais da rua, lifestyle. Também para competição, mas ela é mais divertida. Essa Street aqui é mais para competição, campeonato”, explicou Carlos.
Para Carlos, a criação da pista do Abraão tem relação com o crescimento do skate competitivo em Florianópolis e com a medalha olímpica de Pedro Barros. Segundo ele, o resultado do atleta ajudou a fortalecer a imagem da cidade como referência no esporte, mas também mostrou a necessidade de investimento em equipamentos adequados para o desenvolvimento da modalidade.
“A medalha do Pedro tem uma grande ligação ao título de Florianópolis como capital do skate. Porque o equipamento público demanda investimento e o orçamento sai de algum lugar”, afirmou.
Além das pistas, o incentivo financeiro aos atletas também faz parte da estrutura esportiva da cidade. Florianópolis possui o Programa Bolsa Desportiva Municipal, conhecido como Bolsa Atleta, que oferece auxílio financeiro para atletas e paratletas do município que participam de competições oficiais. O edital de 2026 prevê apoio para esportistas a partir de 14 anos, com critérios ligados ao desempenho esportivo e apresentação de planejamento de treinos e competições.
Para skatistas envolvidos com a formação de novos atletas, porém, o auxílio individual não substitui a necessidade de espaços adequados para treinamento. Carlos aponta que o desenvolvimento da modalidade depende de pistas acessíveis para diferentes níveis, desde quem está começando até quem busca competir profissionalmente.
“Quantas Trindades não deveriam ter espalhadas pelo Brasil ou fora? Quem sabe as crianças não teriam mais oportunidade de conhecer um skate, assim como conhecem o futebol e a bicicleta, se tivessem mais pistas”, disse.
Além da construção de novos espaços, a manutenção das pistas existentes também depende da mobilização da própria comunidade. Segundo Carlos, integrantes da Associação Skateboard do Abraão participam dos cuidados com o local, já que as estruturas precisam de reparos constantes para manter condições adequadas de treino.
Florianópolis continua recebendo eventos nacionais, formando atletas reconhecidos e mantendo uma cena ativa no skate. A discussão entre skatistas é que o reconhecimento da cidade como referência na modalidade precisa ser acompanhado por uma estrutura capaz de atender quem pratica por lazer, quem está começando e quem busca representar o município em competições.